Blog do Josias
Dilma
Rousseff e Michel Temer viveram na noite passada experiências
antagônicas. Recolhida ao Palácio da Alvorada, a presidente assistiu,
pela televisão, à sessão extraordinária em que o STF sepultou as
ações do governo contra a votação do impeachment. “Se houver falta de
votos, não há intervenção judicial que salve”, ironizou o ministro
Gilmar Mendes a certa altura.
Os
votos que escasseiam no cesto de Dilma cercavam o vice-presidente da
República numa mansão no Lago Sul, bairro chique da Capital. Algo como
80 deputados apertavam a mão, abraçavam, trocavam um dedo de prosa com
Temer. Muitos o chamavam de “presidente''. Usufruíram de um coquetel
seguido de jantar. Tudo oferecido pelo deputado Heráclito Fortes
(PSB-PI). Respirava-se no local doce fragrância da perspectiva de poder.
Pelo
celular, a internet levava à mansão da filha de Heráclito, onde Temer
se servia de risoto e vinho, as mesmas informações que a TV despejava
sobre o tapete do Alvorada. O STF indeferiu um par de pedidos de
liminares contra a ordem escolhida por Eduardo Cunha para que os
deputados pronunciem seus votos no microfone.
No
principal julgamento da noite, os ministros da Suprema Corte rejeitaram
por 8 votos a 2 duas teses esgrimidas pelo advogado-geral da União,
José Eduardo Cardozo. Numa, ele alegava que a comissão do impeachment
cerceou o direito de defesa de Dilma. Noutra, reclamava que o relator
Jovair Arantes (PTB-GO) incluiu no seu relatório temas estranhos à
denúncia original —Lava Jato e pedaladas praticadas antes do atual
mandato presidencial, por exemplo.
Com
esses dois argumentos, Cardozo pretendia anular a sessão que o
presidente da Câmara marcou para domingo. Pedia que o STF determinasse o
reinício do processo. Algo que daria tempo ao governo para tentar
cooptar aliados que lhe permitam atingir a marca de 172 votos, mínimo
necessário para brecar o impedimento da presidente.
O
STF decidiu que, na hora de votar, os deputados terão de levar em conta
apenas as duas acusações relacionadas ao atual mandato de Dilma: 1) a
edição de decretos que autorizaram gastos sem a anuência do Legisaltivo.
2) empréstimos contraídos pelo governo em bancos oficiais as chamadas
pedaladas fiscais.
Depois
de circular de rodinha em rodinha, Temer acomodou-se numa das mesas.
Dividiu-a com outras dez pessoas. Entre elas líderes de partidos
engajados no impeachment. Nesse universo, as horas mais preciosas são as
mais rápidas. Na contabilidade dos rivais de Dilma, já existem 363
votos a favor do impeachment, 21 além do mínimo necessário. Daí a
incômoda sensação de que, para a oposição, certos dias, como os dois que
faltam para o domingo da votação, têm 100 anos de duração.