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Andrei Meireles – Blog Os Divergentes
Eduardo
Cunha sabe que perdeu o bonde da delação premiada. Sempre soube que era
uma negociação difícil — nunca teve um pingo de confiança do Ministério
Público –, e sua queda e prisão haviam virado um marco no combate à
corrupção e à impunidade no país.
Mesmo
assim alimentava a expectativa de conseguir uma vaguinha nas cadeiras
finais de algum vagão. Depois da queda de Dilma Rousseff, em que foi
protagonista, imaginou que poderia escapar usando outra carta valorizada
em seu baralho viciado.
O
nome do jogo virou Michel Temer. Mais do que com Dilma, Cunha avaliava
ter muita mais munição contra Temer. Em sua narrativa da história, Temer
só virou vice de Dilma porque, em 2010, ele peitou o PT e vetou
Henrique Meirelles, o preferido de Lula.
Meirelles
hoje dá outra versão para sua saída do páreo. Diz que na undécima hora
recusou o convite de Lula. Quem acompanhou de perto o jogo bruto do
PMDB, orientado por Eduardo Cunha, sabe que não foi bem assim.
Para
superar as desconfianças de Dilma, Temer e Cunha até simularam um
afastamento. Na época, os jornais noticiaram uma briga entre eles. Cunha
achava graça. No auge dessa suposta querela, ele sempre esteve próximo a
Temer. Frequentava sua casa.
Claro que nem sempre viveram em lua de mel. Rusgas são frequentes nas relações entre políticos. Eles são muito competitivos.
Mas
desde 2010 em vários momentos – e já escrevi sobre isso muitas vezes –,
os conflitos entre eles foram meros jogos de cena. Assim foi, por
exemplo, no jogo do impeachment.
A
diferença dessa última parceria bem sucedida deles foi o desfecho:
Temer ganhou a Presidência da República e Cunha foi parar no xilindró.
Ali começou uma nova partida.
Eduardo
Cunha se considera um gênio em estratégias para ganhar dinheiro e
vencer no jogo político. Em algum momento, quando ambos se confundiram,
foi bem sucedido.
O fracasso não o abateu. Foi para a cadeia convencido de que seu talento nessas duas frentes o tiraria de lá.
Para isso, teria que manter a pose e a frieza em apostas diferentes.
Avaliava
que tinha um coringa na mão. Dependia só dele. Para não fazer uma
aposta errada, obter menos do que esperava, esticou o blefe com todos os
parceiros na mesa do jogo.
Com
as perguntas que apresentou em juízo a Michel Temer tentou amedrontar o
presidente, que considera suscetível a pressões, e a seduzir a turma de
Rodrigo Janot com uma delação premiada explosiva.
Foi atropelado pelo furacão Joesley Batista.
Seu operador Lúcio Funaro reagiu mais rápido à tempestade, entregou toda a turma, conseguiu a delação premiada.
Eduardo
Cunha ficou de mãos vazias, sem ter o que entregar. Sua primeira reação
foi acusar Funaro de ter roubado seu roteiro para uma eventual delação.
Tem
precedente. Na cela que dividiam no Complexo Médico Penal, na região
metropolitana de Curitiba, Nestor Cerveró, ex-diretor Internacional da
Petrobras, pediu ajuda ao operador Fernando Baiano, também ligado a
Eduardo Cunha, para preparar uma minuta de sua proposta de delação
premiada.
Cerveró
virou uma fera ao descobrir que seu roteiro virou o salvo conduto de
Fernando Baiano. Sem ter o que entregar, instruiu o filho a gravar o
senador Delcídio do Amaral, então líder do governo, e, como todos sabem,
esse novelo continuou a ser desfiado.
O
problema para Eduardo Cunha é que não lhe resta mais nenhum tipo de
tábua de salvação na Justiça. A não ser uma hipotética ajuda de Temer.
No
desespero, passou a defender Temer com unhas e dentes. O Palácio do
Planalto bate bumbo. Eduardo Cunha virou fiador da narrativa palaciana
de que Temer é vítima de uma conspiração urdida no Ministério Público.
Para
Cunha, sem nenhuma perspectiva de se safar da Justiça, qualquer
mãozinha é lucro. Nem precisa ser direta. Pode ser uma das versões de
anistia, articuladas nos bastidores, que beneficie o próprio Temer,
Lula, Aécio e toda a turma acusada na Lava Jato.
No caso de Cunha, se conseguir redução de algumas penas, já estará de bom tamanho.
A conferir.
