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Do G1
Os ministros Luís Roberto Barroso e Gilmar Mendes protagonizaram,
hoje, uma tensa discussão no plenário do Supremo Tribunal Federal (STF).
A discussão começou quando Gilmar criticou a forma como o Rio de
Janeiro – estado de origem de Barroso e em grave crise fiscal – vinha
utilizando dinheiro de parte dos precatórios (dívidas do estado com
pessoas e empresas) para pagar despesas próprias.
Na sessão, estava em julgamento outro assunto: uma ação para validar a
extinção do Tribunal de Contas dos Municípios do Ceará. No momento,
Gilmar Mendes votava e falava sobre a gestão de recursos públicos.
Incomodado com a crítica ao Rio de Janeiro, Barroso citou Mato Grosso, estado de Gilmar Mendes, "onde está todo mundo preso".
Gilmar Mendes então treplicou lembrando da atuação de Barroso no
mensalão: afirmou que ele soltou o ex-ministro José Dirceu. Relator da
execução penal do petista, Barroso respondeu que tomou a decisão com
base em decreto da ex-presidente Dilma Rousseff de conceder indulto
(perdão da pena) a condenados.
“Não transfira para mim essa parceria que vossa excelência tem com a
leniência em relação à criminalidade de colarinho branco”, disse Barroso
ao final da discussão a Gilmar Mendes, que apenas respondeu: “Hehehe,
imagine”.
Durante a discussão, Gilmar disse que Barroso foi responsável por
soltar o ex-ministro José Dirceu, condenado no mensalão. Barroso
explicou que apenas tinha cumprido a lei, disse que o colega mentia e
fez críticas à atuação dele na Corte.
“Vossa excelência devia ouvir a última música do Chico Buarque: a
raiva é filha do medo e mãe da covardia. Vossa excelência fica
destilando ódio o tempo inteiro. Não julga, não fala coisas racionais,
articuladas, sempre fala coisa contra alguém, está sempre com ódio de
alguém, está sempre com raiva de alguém. Use um argumento”, falou.
Em um momento seguinte, Gilmar respondeu:
“Quanto ao meu compromisso com o crime de colarinho branco, eu tenho
compromisso com os direitos fundamentais. Fui o presidente do STF que
foi inicialmente que liderou todo o mutirão carcerário. São 22 mil
presos libertados e era gente que não tinha sequer advogado. Não sou
advogado de bandidos internacionais”, provocou.
Barroso ainda replicou: “Vossa excelência vai mudando a
jurisprudência de acordo com o réu. Isso não é estado de direito, é
estado de compadrio. Juiz não pode ter correligionário”, disse.
A discussão
Leia abaixo a transcrição da discussão entre os dois ministros:
Gilmar Mendes: Nós declaramos inconstitucional uma
emenda, mas os estados estavam pagando, era obrigatório. Tinha até
requisição obrigatória para isso. Mas nós declaramos inconstitucional
uma emenda, duas semanas depois disse ela fica em vigor. Ficou em vigor e
obviamente já não valeu mais nada a decisão. Aí viemos e modulamos os
efeitos. Dissemos os estados que não davam conta de pagar em 15 deveriam
pagar em 5. O último movimento desse episódio, e aí nós tivemos até um
debate em plenário, em que se disse por exemplo que a gente devia seguir
a fórmula do Rio de Janeiro. Vossa Excelência deve se lembrar disso.
Que usavam os depósitos judiciais para pagar. Veja que não estou fazendo
nenhuma ironia. Não sei para que hoje o Rio de Janeiro é modelo, mas à
época se disse, devíamos seguir o modelo do Rio de Janeiro. Eu mesmo sou
relator de um processo contra os depósitos judiciais e mandei sustar a
transferência para o Rio de Janeiro. Mas se disse a prova de que falta
credibilidade ao administrador é o caso do Rio de Janeiro. Gente, citar o
Rio de Janeiro como exemplo
Luís Roberto Barroso: Eles devem achar que é Mato Grosso.
Gilmar Mendes: Não, é o Rio de Janeiro mesmo.
Luís Roberto Barroso: Onde tá todo mundo preso.
Gilmar Mendes: Ah não, no Rio não estão.
Luís Roberto Barroso: Aliás, nós prendemos, tem gente que solta.
Gilmar Mendes: Veja o caso... Solta cumprindo a Constituição. Quem gosta de prender? Vossa excelência quando chegou aqui soltou o José Dirceu.
Luís Roberto Barroso: Ele recebeu indulto do presidente da República.
Gilmar Mendes: Não, não. Vossa excelência julgou os embargos infringentes.
Luís Roberto Barroso: Absolutamente, é mentira.
Gilmar Mendes: Vossa excelência, dizia que o mensalão...
Luís Roberto Barroso: Aliás, vossa excelência normalmente não trabalha com a verdade.
Gilmar Mendes: Não, não.
Luís Roberto Barroso: Então gostaria de dizer que
José Dirceu foi solto por indulto da presidente da República e vossa
excelência está fazendo um comício que não tem nada que ver com extinção
de tribunal de contas no Ceará. Vossa excelência está queixoso porque
perdeu o caso dos precatórios e está ocupando tempo do plenário com
assunto que não é pertinente para destilar esse ódio constante que vossa
excelência tem e agora eu diria contra o Rio de Janeiro. Vossa
excelência devia ouvir a última música do Chico Buarque: a raiva é filha
do medo e mãe da covardia. Vossa excelência fica destilando ódio o
tempo inteiro. Não julga, não fala coisas racionais, articuladas, sempre
fala coisa contra alguém, está sempre com ódio de alguém, está sempre
com raiva de alguém. Use um argumento.
Cármen Lúcia: Ministro, eu pediria que a gente voltasse para o julgamento do caso por favor.
Gilmar Mendes: Vou voltar. Eu só queria lembrar que
os embargos infringentes do José Dirceu foram decididos aqui com... E se
dizia que mensalão era caso fora da curva.
Luís Roberto Barroso: José Dirceu permaneceu preso,
sob minha jurisdição, sob minha jurisdição, inclusive revoguei a prisão
domiciliar que achei imprópria e concedi a ele indulto com base no
decreto aprovado pela presidente da República, porque ninguém é melhor
nem pior que ninguém, portanto apliquei a ele a lei que vale para todo
mundo. Quem decidiu aliás foi o Supremo e não fui eu. Porque o Supremo
tem 11 ministros, e, portanto, a maioria entendeu que não havia o crime.
E depois ele cumpriu a pena e só foi solto por indulto e mesmo assim
permaneceu preso porque estava preso por determinação da 13ª Vara
Federal de Curitiba e agora só está solto porque a Segunda Turma
determinou que ele fosse solto. Portanto não transfira para mim essa
parceria que vossa excelência tem com a leniência em relação à
criminalidade de colarinho branco.
Gilmar Mendes: Hehehe, imagine.
Alguns minutos depois, eles retomaram a discussão:
Gilmar Mendes: E chamo atenção, presidente para o
próprio decreto constitucional aqui adotado que simplesmente não faz
nenhuma clausula de transição. Quanto ao meu compromisso com o crime de
colarinho branco, presidente, eu tenho compromisso com os direitos
fundamentais. Fui o presidente do STF que foi inicialmente que liderou
todo o mutirão carcerário. São 22 mil presos libertados e era gente que
não tinha sequer advogado. Não sou advogado de bandidos internacionais.
Luís Roberto Barroso: Vossa excelência vai mudando a
jurisprudência de acordo com o réu. Isso não é estado de direito, é
estado de compadrio. Juiz não pode ter correligionário.
Cármen Lúcia: peço por favor, estamos no plenário do Supremo
Gilmar Mendes: Então, tenho esse histórico e
realmente na segunda turma que eu sempre integrei nós temos uma
jurisprudencia responsável, libertária e não fazemos populismo com
prisões.
Carmen Lúcia: Ninguém faz, ministro, o Supremo faz julgamentos.
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