Folha de S.Paulo – Paulo Gama e Nicola Pamplona
O
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou seu discurso na festa de
aniversário de 36 anos do PT neste sábado (27) no Rio para fazer sua
primeira defesa pública sobre as suspeitas de ter sido favorecido por empreiteiras em
imóveis no interior e no litoral de São Paulo. O petista tentou se
desvincular das duas propriedades investigadas e atacou o Ministério
Público e a Polícia Federal.
Pela
primeira vez, o petista disse publicamente ter recebido o sítio em
Atibaia de presente por iniciativa de seu amigo Jacob Bittar, fundador
do PT, e de "outros companheiros".
"Ele
inventou de comprar uma chácara para que eu pudesse utilizar quando eu
deixasse a Presidência. Fizeram uma surpresa pra mim até o dia 15 de
janeiro [de 2011]", afirmou. "A chácara não é minha", acrescentou.
Em
relação ao tríplex no Guarujá, no litoral paulista, em que há suspeitas
de que Lula foi favorecido pela OAS, o petista disse não ter relação
com a propriedade.
"Eu
digo que não tenho o apartamento. A empresa diz que não é meu. E um
cidadão do Ministério Público, obedecendo ipsis literis o jornal 'O
Globo' e a 'Rede Globo', costuma dizer que o tríplex é meu", apontou,
depois de ironizar o imóvel como "tríplex do Minha Casa Minha Vida, de
200 metros quadrados".
Lula
afirmou que parte do Ministério Público se subordina à imprensa e
afirmou que "as pessoas que se subordinam dessa forma não merecem o
cargo que estão no país, concursadas para fazer justiça, para
investigar".
O
ex-presidente disse ainda ter recebido a informação de que terá seus
sigilos bancário, telefônico e fiscal quebrados, mas não especificou o
que motivou a ordem.
"Se
esse for o preço que a gente tem que pagar para provar a inocência, eu
faço", declarou. "Só quero que depois me deem um atestado de
idoneidade."
Conclamando
os militantes a não "baixar a cabeça", Lula disse que os petistas "não
podem levar desaforo para casa toda vez que falarem merda da gente".
O
ex-presidente disse ainda que acabou sua fase "Lulinha paz e amor",
expressão cunhada na campanha de 2002, diante da mudança de perfil em
relação às eleições anteriores.
O
petista saiu em defesa da sucessora, a presidente Dilma Rousseff, que,
em um dos momentos de maior tensão com o PT, não compareceu à festa, mas
apontou que ela tem que ter certeza de que o PT é "o lado dela".
"Por
mais que possamos ter divergências com qualquer pessoa do governo, esse
governo é nosso e temos responsabilidade de fazer dar certo. A gente
tem que ter claro e a Dilma tem que ter certeza é que o lado dela é
esse, e ela precisa de nós para sobreviver aos ataques que vem sofrendo
no Congresso."
CARTA
Em
viagem ao Chile, Dilma justificou a ausência dizendo que o país é
grande parceiro brasileiro, mas mandou uma carta, lida pelo presidente
da sigla, Rui Falcão.
Na mensagem, a presidente fez uma defesa do partido e de Lula e disse que os ataques a seu governo não a "farão recuar".
O
texto, um aceno ao partido no momento de maior distanciamento entre ela
e o PT, não foi bem recebido pela cúpula da sigla, insatisfeita com a
ausência da presidente nas festividades e com a agenda econômica
colocada pelo Planalto com defesa de temas que contrariam bandeiras
históricas da sigla, como a reforma da Previdência.
A
leitura da carta foi acompanhada por gritos de "não vai ter golpe".
Antes do discurso de Lula, foi exibido um vídeo com imagens do
ex-presidente cercado por eleitores.