Temer assiste
O
aprofundamento da crise política nos últimos dias esfriou ainda mais o
relacionamento entre a presidente Dilma Rousseff e seu vice, Michel
Temer, que assumirá o cargo se ela for afastada por um processo de
impeachment ou renunciar.
Aliados
que conversaram com Temer nos últimos dias disseram que ele tem feito
questão de se mostrar inerte, "um mero observador dos fatos", no momento
em que todas as articulações do Planalto estão concentradas em barrar a
abertura de um processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff.
A
postura, evidenciada esta semana, foi interpretada por integrantes do
governo e da cúpula do PMDB como um sinal de que Temer não se moverá
para ajudar a conter o movimento que prega a derrubada de Dilma.
O
vice deu diversos relatos nos últimos dias sobre seu descontentamento
com a presidente. Na cúpula do PMDB e entre seus amigos, é unânime a
constatação de que a relação entre ele e Dilma "nunca esteve tão fria" e
que Temer chega a demonstrar "certo alívio" por ter sido alijado das
últimas decisões encampadas pela petista, por julgar terem sido todas
desastrosas.
Três
eventos recentes contribuíram de forma decisiva para o descolamento do
vice. A ofensiva do governo sobre o ministro Augusto Nardes, relator das
contas de Dilma no TCU (Tribunal de Contas da União) foi um deles.
Temer
não foi consultado, sequer informado com antecedência da decisão. Fez
questão de demonstrar publicamente sua contrariedade, não só pelo
isolamento a que foi submetido, mas por discordar da investida contra o
ministro do TCU.
"A
ação contra Nardes produziu efeito contrário e criou uma crise
institucional. Achavam que o [ministro Luiz] Fux [do Supremo] ia barrar e
ele não barrou. A percepção no plano institucional é de que ela não tem
mais poder", avalia um aliado de Temer.
A
ação contra Nardes ocorreu dias após a presidente ter fechado o novo
desenho de seu ministério, episódio que já havia irritado Temer.
Na
reforma, Dilma optou por abrir um caminho para diálogo direto com o
PMDB, empoderando o deputado Leonardo Picciani (RJ), líder do partido na
Câmara.
A
opção desagradou caciques do PMDB, Temer entre eles, que viram uma
tentativa de dividir a sigla. "Ela tentou entrar no PMDB pelas costas
dele, sem conhecer as entranhas do partido", resume um senador da sigla.
TSE
Houve
ainda um terceiro evento que contribuiu para mudar a percepção de Temer
e peemedebistas mais próximos ao governo sobre a crise: a decisão do
TSE (Tribunal Superior Eleitoral) de investigar as contas da campanha
petista de 2014.
A
ação pode levar à cassação da chapa Dilma-Temer. "Se sentirmos que isso
vai andar, faremos a escolha de Sofia", diz um peemedebista. Como
mostrou a coluna Painel, da Folha, o desdobramento desse processo é visto no PMDB a senha para o embarque em peso da sigla na tese do impeachment.
LAVAR AS MÃOS
O
clima de desconfiança entre Dilma e Temer ganhou contornos dramáticos
em agosto, quando o vice fez um apelo pela governabilidade. Houve reação
entre aliados de Dilma, que viram no gesto uma tentativa de Temer de se
credenciar como substituto.
A partir daí, a petista o afastou da articulação política e assumiu as rédeas da relação com o PMDB.
A
iniciativa não aplacou a crise no Congresso e ainda estimulou uma
aproximação da oposição com setores do PMDB ligados a Temer. Hoje, o
próprio vice conversa com líderes do PSDB, como o senador Aécio Neves
(MG).
Recentemente,
ao comentar com um aliado a incapacidade do governo de conseguir quorum
para aprovar projetos de seu interesse no Congresso logo após a
reforma, disse que já não poderia ajudar. "Ela disse que iria coordenar,
que coordene", desabafou, segundo o amigo.
O
vice, então, lavou as mãos? "Ele não lavou as mãos. Lavaram as mãos
dele. Tanto fizeram, que ele está completamente desobrigado de qualquer
gesto", defende um amigo.