Ricardo Noblat
Falsa, como uma cédula de três reais, a
nota distribuída no último sábado pela oposição onde pede o afastamento
de Eduardo Cunha da presidência da Câmara dos Deputados.
Há suspeitas robustas demais contra ele
por crimes de corrupção ativa, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e
sonegação de impostos.
E nem um só pingo de indignação na nota. Pelo contrário: há preocupação com Eduardo.
Noves fora a introdução que ocupou uma
linha e meia, e a relação de nomes dos líderes que tomou quase duas, o
essencial da nota foi espremido em pouco mais de duas linhas.
E, observe-se: a oposição não pede em
momento algum que Eduardo renuncie ao cargo. Pede apenas que se afaste
dele para melhor se defender das acusações. Ponto final. Compreensível.
A oposição precisa dele para derrubar Dilma. Sem a sua boa vontade, tudo será mais difícil e demorado.
Dilma precisa dele para não ser derrubada.
A essa altura, pois, para que respirasse
tranquilo, bastaria a Eduardo não correr o risco de ser expulso da
política como ficha suja e condenado a muitos anos de cadeia. Mas nem
tudo é perfeito, por suposto. Nem mesmo Eduardo.
Em que lugar uma velha meretriz
cometeria os deslizes que ele cometeu para esconder fora do país
dinheiro de origem, digamos, pagã – logo Eduardo, um evangélico cioso de
suas obrigações perante Deus?
A Justiça suíça descobriu que ele, a
mulher e a filha tinham contas bancárias por lá. Geralmente, contas do
tipo são abertas em nome de terceiros.
Delas constam nomes de terceiros como
beneficiados. E endereços de terceiros que nada têm a ver com os
endereços dos verdadeiros donos das contas.
Pasmem: Eduardo fez tudo ao contrário –
ou alguém por ele. As contas estavam em seu nome. Os beneficiados, ele,
mulher e filha. O endereço de Eduardo no Rio constava do cartão de
abertura das contas.
Quer mais?
Cartão de crédito do banco suíço pagou despesas milionárias dos Cunha em viagens ao exterior. Por quê? Sei lá. Misericórdia!
Na semana passada, Dilma despachou
ministros ao encontro de Eduardo para pedir compaixão por ela, uma pobre
presidente com fama de mentirosa e popularidade menor do que a taxa de
inflação do país.
A ideia de Dilma é celebrar um acordo de
proteção mútua. Eduardo atrapalharia na Câmara a abertura de processo
de impeachment contra ela.
Dilma tentaria ajuda-lo junto à
Procuradoria Geral da República e tribunais superiores. Ao fim e ao
cabo, uma mão teria lavado a outra. Que lhes parecem? Coisa de bandidos?
Rodrigo Janot, Procurador Geral da
República, está pronto para denunciar Eduardo ao Supremo Tribunal
Federal e pedir sua prisão preventiva.
Afinal, o segundo na linha direta de
sucessão do presidente da República resistiria à tentação de usar os
poderes do cargo para defender-se? Uma das maneiras de proceder assim
seria facilitar a queda de Dilma. Por que não facilitaria?
Para conter a fúria de Janot, Eduardo jura que a deposição de Dilma não terá vez com ele.
No limite, poderá entregar a presidência
da Câmara, conservando o mandato de deputado que lhe garante fórum
especial para ser julgado.
Em troca de apoio, Dilma só tem cargos a oferecer. Quanto mais dá, mais lhe cobram. E sem a contrapartida do voto.
Eduardo é forte na Câmara, palco do impeachment. Dilma é fraca.
A Justiça é lenta para punir. Se quiser, o Congresso será rápido.
Quem cai primeiro?