Carlos Chagas
Metade
da Câmara quer o impeachment da presidente Dilma. A outra metade
deseja a cassação de Eduardo Cunha. Engalfinham-se os deputados, sem
perceber que o povão tem outras preocupações: o desemprego em massa, o
aumento do custo de vida, o congelamento e até a redução dos salários, a
alta dos impostos e taxas de serviços essenciais, a péssima qualidade
da saúde e da educação públicas e a violência urbana e rural.
A
falta de sintonia entre eleitos e eleitores acentua-se cada vez mais,
como se vivessem em dois mundos distintos. Não vai dar certo, ainda que
tanto Dilma quanto Cunha possam ser objeto da frustração e da
indignação geral. Falta um roteiro, um plano e um esforço para
enfrentar as carências generalizadas, mas nem o governo nem o Congresso
parecem preocupar-se. Madame e o deputado querem preservar os
respectivos mandatos, como se suas obrigações se esgotassem nesse
objetivo.
Vale
indagar como ficaria o país sem Dilma e sem Cunha. Mudaria o quê, caso
ambos fossem postos para fora? Nada. A população talvez vivesse dez
minutos de euforia, comemorando as duas ausências, mas logo voltaria a
sofrer as mesmas agruras. O grave na conjuntura atual é a inexistência
de alternativas. Executivo e Legislativo comportam-se como se não lhes
coubesse enfrentar a desagregação nacional. Desconhecem a falência do
Estado, hoje posto em frangalhos.
Já
se escreveu muito sobre a rebelião das massas, sonho de alguns poetas.
Elas poderão ganhar as ruas por pouco tempo, mas logo terão que ir
para casa.
Em
suma, só um programa capaz de enfrentar um por um os obstáculos que
nos assolam substituiria com extrema vantagem a presença de Dilma e
Cunha. O diabo é que inexistem partidos, corporações, associações e
centrais sindicais cuidando disso. Sendo assim, não vai adiantar nada
trocar seis por meia dúzia, ainda que mudanças assim sirvam ao
menos para melhorar o humor.