José Dirceu é um típico caso de brilho e de decadência. Nos
anos 60, eram ele e Travassos, os dois grandes líderes estudantis
brasileiros trocados, quando presos pela ditadura, pelo embaixador
Elbrick. Foi exilado e preferiu fazer curso de guerrilha em Havana,
embora dormisse mais do que treinasse. Foram 15 os jovens brasileiros
deportados. No seu retorno, com a anistia, reassumiu a política,
concluiu o curso universitário e integrou o nascente PT, fundado por
Lula, então torneireiro-mecânico, com o auxílio de intelectuais, que
pouco a pouco deixaram o PT, e as Comunidades Eclesiais de Base da
Igreja Católica, cujo expoente maior foi o frei Beto. Quando, afinal o
Partido dos Trabalhadores chegou ao poder em 2003 com a eleição de Lula,
ele era o segundo nome, logo depois do presidente. Ambos irmanados
diante de um projeto de poder para governar 20 anos. O sucesso de José
Dirceu, eleito deputado federal e transformado em chefe da Casa Civil do
companheiro Lula foi imediato. Tornou-se um político de brilho mais
invulgar ainda, se não desabasse embriagado no seu próprio egocentrismo.
Primeiro, organizando o mensalão que o levou a ser cassado e o levou à
prisão. Deu-se então a metamorfose, a impensada mudança que ocorrera na
ascendência como segundo homem da República. Do líder estudantil dos
anos 60, emaranhou-se no próprio sucesso, dele e do seu partido. Mesmo
na chefia da Casa Civil de Lula, Dirceu não perdeu o brilho.
Transferiu-o, porém, para planejar a maior estrutura de corrupção que já
ocorrera no Brasil. Sabe-se, agora, que foi ele quem organizou um
projeto mais corrupto ainda: o do petrolão. A ambição pelo poder, pelo
enriquecimento à custa do país, o derrubou lançando-o, como se vê agora,
à lama mais abjeta. Já sem poder, com os amigos dispersos, responde a
outro processo depois da primeira condenação, sem a condição de réu
primário. O futuro do jovem líder deverá supostamente ser o presídio,
deixando, no entanto, o país semeado pela roubalheira, que não nasceu
com ele. Foi aperfeiçoada. O que ocorrerá a partir da Lava Jato é uma
incógnita, mas poderá levar seu líder, o ex-presidente Lula na mesma
trilha. O partido que ajudou a fundar está em frangalhos, desmoralizado e
o sonho dos trabalhadores desfeito. José Dirceu é o resultado do
próprio poder que ele imaginou. Já com a fisionomia envelhecida,
desesperado, triste, sem caminho à frente, para ele resta tão somente o
passado. Se é que já não o esqueceu. Do brilho que imaginou ter, e
tinha, à corrupção que comandou ao se sentir intocável.