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Diferente da truculência habitual no trato que Geddel
Vieira Lima tinha com a imprensa quando o assunto não lhe era agradável,
o deputado federal Lúcio Vieira Lima era mais bonachão. Fazia piada até
quando era alvo de perguntas incisivas e, normalmente, se saía bem de
embaraços causados pelo entrevistador. Era uma boa estratégia, visto que
a pedagogia do constrangimento impele aquele que pergunta a ficar
calado. Entre os irmãos Vieira Lima que ocuparam cargos públicos, Lúcio é
bem mais simpático se comparado a Geddel. As próprias publicações em
redes sociais mostram que o mais jovem da dupla ria de si mesmo com mais
frequência. Desde o medo de avião até o cãozinho da filha, que ganhou
perfil no Instagram, numa tentativa de formar um dog influencer, Lúcio
era bem falante e tinha resposta para tudo – ou quase tudo. Era assim
até bem pouco tempo. Já após a primeira prisão de Geddel, no começo de
julho, o então presidente da Comissão Especial da Reforma Política
submergiu um pouco e deixou de ser tão falastrão. Apareceu pontualmente
e, aliado a uma licença médica, conseguiu passar pouco percebido até
meses depois do primeiro baque da detenção do irmão. O bunker com R$ 51
milhões transportou Lúcio direto para o furacão em que o ex-ministro se
envolveu – e que o colocou na cadeia, juntamente com um antigo aliado, o
ex-diretor da Defesa Civil de Salvador, Gustavo Ferraz. Foi para Lúcio
que o apartamento na Graça foi emprestado e nele a Polícia Federal fez a
maior apreensão em dinheiro vivo da sua história. No imóvel, além da
fatura de uma empregada dele, a PF localizou também traços de impressões
digitais do deputado. Sim, era esperado que Lúcio estivesse presente
naquela cena dantesca. Porém o foro privilegiado, garantido pelo cargo
na Câmara dos Deputados, fez com que ele fosse “preservado” do escândalo
das malas de dinheiro em um primeiro momento. Nesta segunda-feira (16),
todavia, acabou a serenidade contra Lúcio. O parlamentar passou a ser
investigado a partir do cumprimento de mandados de busca e apreensão em
sua residência e também no gabinete em Brasília (DF). Para quem falava
sobre muita coisa, o silêncio se torna perturbador. É quase o silêncio
que precede o esporro. E, caso resolvam falar, Geddel e Lúcio podem
abalar a cena política brasileira tanto quanto outros interlocutores
que, mal ou bem, sabem demais. Saudades dos Vieira Lima que discorriam
sobre tudo. O caminho trilhado pelo PMDB praticamente se confunde com a
história dos governos recentes do Brasil pós-ditadura. E é por isso que o
silêncio deles é tão inconveniente para quem espera ouvir sobre os
bastidores da política. Este trecho é parte do comentário desta
terça-feira (17) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para as rádios Irecê Líder FM e Clube FM.
