‘Estou falando com o presidente?’; 'Está, perfeitamente’
Reportagem do GLOBO ligou para o número e falou com o presidente da República
O Globo - Vinicius Sassine
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A Câmara dos Deputados tornou público o número de um telefone celular de uso pessoal do presidente da República, Michel Temer. O registro estava num aparelho iPhone do ex-ministro da Secretaria de Governo da Presidência Geddel Vieira Lima,
apreendido pela Polícia Federal (PF) numa das operações derivadas da
Lava-Jato. O conteúdo extraído do celular de Geddel, centenas de outros
documentos e vídeos de delatores – entre eles o doleiro Lúcio Funaro –
foram compartilhados com a Câmara, que vai analisar a segunda denúncia
da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o presidente. Todo o
material foi disponibilizado no site da Casa e pode ser acessado por
qualquer cidadão. A reportagem do GLOBO ligou no número de Temer às
16h36m desta segunda-feira e falou com o presidente.
Primeiro,
o repórter questionou se o celular era do Palácio do Planalto. O
presidente disfarçou e disse que não. Depois, foi detalhado que o número
estava na agenda de Geddel como sendo do presidente da República. O
ex-ministro está preso preventivamente no Presídio da Papuda, em razão
das suspeitas de que manteve R$ 51 milhões num "bunker" em Salvador,
também apreendidos pela PF. Temer pediu:
— Liga aqui para o gabinete do presidente e fala com a dona Nara (de Deus, chefe de gabinete de Temer).
— Eu estou falando com o presidente, não estou? — questionou o repórter.
— Está, perfeitamente — respondeu.
Temer
disse não ver problema em seu número de celular pessoal estar
disponível no site da Câmara, junto com o material relacionado à segunda
denúncia da PGR. Os documentos das investigações foram compartilhados
com a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, que fará a
primeira análise em relação à denúncia.
—
Se você ligar para... quem... Se você ligar para qualquer ministro ou
qualquer ex-ministro, ou qualquer deputado, vai encontrar esse número
também. Acho que centenas de pessoas têm esse número. (...) Aliás, umas
das críticas que eu recebo é que eu atendo o meu celular — disse o
presidente.
No
mesmo material compartilhado com a Câmara, estão registros de e-mails
enviados por Geddel a partir do iPhone que foi apreendido. O ex-ministro
tentou por quatro vezes, em outubro de 2016, enviar e-mail ao endereço
(...)@gmail.com. Geddel era ministro da Secretaria de Governo e
despachava no Palácio do Planalto. Temer já era presidente efetivo há um
mês e meio. Deveriam usar, portanto, e-mails institucionais.
O
destinatário escrito pelo ex-ministro não existe. A reportagem do GLOBO
questionou o presidente se ele faz uso do domínio @gmail.com. Esta
conta de e-mail existe e está em uso.
— O senhor usa essa conta ainda?
— Conta?
— É, uma conta particular no gmail.
— Não, conta não. Eu tenho o gmail. Gmail, não, como é que se chama isso? E-mail.
— Ele enviou para (...)@gmail.com?
— É possível. É possível.
— O senhor usa essa conta?
—
Eu não uso. Normalmente vem para minha secretária. Agora, acho que é
isso mesmo. Meu e-mail é esse. Deve ser exatamente esse. VPR, do tempo
da vice.
Depois,
o repórter questionou o presidente sobre a carta enviada por Temer aos
deputados federais nesta segunda-feira, em que critica a segunda
denúncia da PGR contra ele, por organização criminosa e obstrução de
Justiça. Após a resposta, a ligação foi encerrada.
A
divulgação dos vídeos da delação de Funaro no site da Câmara já causou
uma crise entre o presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e o
advogado de Temer, Eduardo Carnelós. Após Carnelós divulgar uma nota em
que manteve críticas à divulgação dos vídeos, Maia disse que a nota não
elimina o erro por completo. Ele afirmou que os servidores da Casa devem
processar Carnelós. E chamou o advogado de “incompetente” e
“irresponsável”. O advogado afirmou que não sabia que os vídeos haviam
sido publicados no site da Câmara.
A
Secretaria de Imprensa da Presidência afirma que o e-mail privado de
Temer segue ativo, mas é pouco utilizado. Segundo a secretaria, é a
chefia de gabinete do presidente que faz uso do e-mail, ainda mantido
porque a conta vem desde a Vice-Presidência e porque "o sistema do
Palácio do Planalto nem sempre é o mais eficiente".
