Em discurso para milhares de pessoas em São Bernardo do Campo, o
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sugeriu nesta segunda (4) que o
vice-presidente Michel Temer estaria à frente de articulação política
para tirar a presidente Dilma Rousseff do poder. "Eu não tenho nada
contra o vice-presidente Michel Temer. Mas, companheiro Temer, você quer
ser presidente? Disputa eleição", disse. Lula participou, na noite
desta segunda-feira, de ato organizado pelo Sindicato dos Metalúrgicos
do ABC em defesa da presidente. Os discursos ocorreram em palanque
montado em cima de um caminhão, posicionado em frente à sede do
sindicato. Último a falar, Lula chegou a puxar o grito "Não vai ter
golpe!" e convocou a militância a ir para as ruas no dia da votação do
impeachment. "Eles estão tentando preparar uma treta para nós", afirmou
Lula. "Não vamos permitir que nossa Constituição seja rasgada, ferida,
que nossa democracia seja arranhada", acrescentou. O ex-presidente
também sugeriu que, se conseguir assumir o posto de ministro-chefe da
Casa Civil, trabalhará para que o ajuste fiscal seja substituído por uma
política de estímulo ao consumo. "É preciso dar uma consertada na
política econômica", afirmou. "A indústria automobilística está perdendo
outra vez e nós precisamos recuperar, é preciso vender carro", disse o
ex-presidente, para um público formado principalmente por metalúrgicos. O
setor enfrenta uma grave crise e cortou, só no ano passado, 14,7 mil
vagas de emprego. Apesar de sinalizar para uma política econômica que
desagrada o mercado financeiro, Lula afirmou que continua sendo o
"Lulinha paz e amor", em referência ao seu primeiro mandato, quando
quebrou a desconfiança dos empresários ao se mostrar um presidente que
buscava a conciliação em questões econômicas. Disse ainda que aqueles
que criticam a presidente Dilma por falta de diálogo irão "se lascar",
pois ele, no governo, irá conversar. Sobre as investigações da operação
Lava Jato a seu respeito, Lula voltou a falar de sua honestidade.
"Duvido que exista alguém mais honesto do que eu", disse. Ele também
afirmou que "ainda tem uma tarefa a ser realizada neste País". Suas
falas eram intercaladas por gritos de apoio e aplausos. Para receber o
evento, a Rua João Basso foi bloqueada pela Prefeitura. Segundo o
sindicato, cerca de 5 mil pessoas compareceram ao ato. Lula foi recebido
com a música "Pra não dizer que não falei na flores", de Geraldo
Vandré, canção geralmente associada à luta contra a ditadura militar. A
parte frontal do palanque exibia uma faixa com a logo do sindicato, uma
imagem de Lula e a hastag #somostodosLula. Outra faixa, pendurada no
próprio sindicato, estampa a frase: "Lula é meu amigo, mexeu com ele,
mexeu comigo". Os militantes vestiam vermelho em sua maioria e
balançavam bandeiras do PT, do sindicato e da Central Única dos
Trabalhadores (CUT). Apresentações musicais embalaram o público antes da
chegada do ex-presidente. Também discursaram o prefeito de São Bernardo
do Campo, Luiz Marinho, que já foi presidente do sindicato, o atual
presidente da entidade, Rafael Marques, e o presidente da CUT, Vagner
Freitas. Desde que foi convidado por Dilma para assumir o comando da
Casa Civil, em março, o ex-presidente tem viajado o Brasil para
participar de manifestações contrárias ao impeachment e a favor da
democracia. Embora ainda não tenha assumido o posto, já que teve sua
nomeação suspensa pela Justiça, ele também tem colaborado com a
articulação política do Planalto, em um esforço para reunir o apoio de
pelo menos um terço dos 513 deputados federais, mínimo necessário para
barrar o processo de afastamento da presidente. A volta de Lula ao
governo, mesmo que informalmente, não impediu, no entanto, que o PMDB,
até então principal aliado do PT, confirmasse a saída da base, em
encontro do partido semana passada. A provocação feita por Lula a Temer
no evento de hoje não foi a primeira. No último sábado, o ex-presidente
participou de ato em Fortaleza, onde criticou a oposição e afirmou que,
se o vice-presidente Michel Temer assumir o governo, será um golpe. "A
nossa resposta a ser dada aos opositores é garantir a governabilidade de
Dilma", disse. Ele também declarou que Temer, como constitucionalista,
sabe que "impeachment é um golpe"